terça-feira, 24 de outubro de 2017

Professores da FMP/Fase usam células-tronco para tratar lesões na mandíbula


As lesões degenerativas graves da articulação temporomandibular (ATM) podem ser refratárias aos tratamentos conservadores e evoluir para intervenção cirúrgica. O transplante autólogo (feito com células do próprio indivíduo) de condrócitos (células da própria cartilagem, como o septo nasal) é uma alternativa ao tratamento convencional. É esta pesquisa que o chefe do Serviço de Dor Crônica Orofacial e Cefálica da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Fase), Ricardo Tesch, tem desenvolvido ao lado do biólogo Radovan Borojevic, coordenador do Centro de Medicina Regenerativa (CMR-FMP). O transplante para tratamento da doença degenerativa do osso e da cartilagem é pioneiro no mundo.

“A ATM é a articulação que permite os movimentos da boca, de extrema importância na realização de funções como mastigar e falar. Na ausência de doenças que a afetem, ela é capaz de suportar bem a carga exercida durante a execução das funções, em grande parte devido à cobertura de cartilagem sobre as corticais dos ossos que se articulam. Mas, na presença de condições sistêmicas que favoreçam a doença articular, como flutuações nas taxas hormonais em mulheres durante o ciclo menstrual, ou quando sobrecarregadas por atividades chamadas parafuncionais, como apertar os dentes durante a noite ou dia, a cartilagem e o osso que é recoberto por ela podem iniciar um processo de degradação chamado osteoartrose”, explica Ricardo Tesch.

Segundo ele, o problema dessa cartilagem é que, uma vez destruída, tem pouco ou nenhum potencial de se autorreparar. Isto se dá pelo fato de o tecido não ser irrigado por vasos sanguíneos e, por isso, as células presentes em nosso organismo responsáveis pela regeneração dos tecidos lesionados (células-tronco adultas), não tem um caminho para chegar até ele. “Uma alternativa seria depositar um grande número das células sobre o local da lesão para que possam participar do processo de regeneração, antes impossível”, explica Ricardo Tesch.

De acordo com o professor da FMP/Fase, o transplante autólogo de condrócitos vem sendo aplicado para outras articulações, principalmente joelhos, desde o final da década de 90, tendo sido a primeira terapia celular não hematológica (como o transplante de medula óssea para o tratamento de doenças do sangue) reconhecida pelo FDA, órgão norte-americano que regulamenta medicações e tratamentos.

“O maior problema para a aplicação sempre esteve na necessidade de uma área doadora de cartilagem do próprio indivíduo. Ou seja, a necessidade de remoção de um pedaço de cartilagem íntegra para cobrir uma área de lesão. O diferencial da técnica que passamos a empregar está na fonte doadora de células, o septo nasal. A região oferece facilidade para remoção e não gera lesão em área exposta à carga. Muitas vezes a cartilagem é removida e sobra, como resto cirúrgico, em procedimentos otorrinolaringológicos como cirurgias de desvio de septo”, conta Ricardo Tesch.

O objetivo da pesquisa é avaliar se a aplicação de condrócitos autólogos associados ao ácido hialurônico é segura e eficaz no processo de reparo tecidual, na reabilitação funcional e redução da dor. Pacientes com diagnóstico de deformidades dentofaciais, consequência de lesões degenerativas graves da ATM, com indicação de correção cirúrgica, foram selecionados para o estudo. Após a remoção por biópsia das células contidas em um pequeno fragmento de cartilagem e o transporte do material biológico para um Centro de Tecnologia Celular (CTC), as células foram isoladas e multiplicadas até atingirem o número necessário para ampliação (10 milhões).

“Para a ATM, o processo demora em média 15, 20 dias. Depois, ficam prontas para serem aplicadas por injeção articular após lavagem, a artrocentese, em ambiente ambulatorial, com anestesia local. O acompanhamento clínico é realizado por sete e 15 dias; um, três, seis e 12 meses após o tratamento, quando também são avaliadas a intensidade da dor e a incapacidade funcional. Exames de imagem por tomografia vêm sendo realizados, acompanhando o processo. Os primeiros resultados superaram todas as expectativas e estão relatados agora em artigo científico”, diz Ricardo Tesch.

O professor ressalta que outra alternativa para casos avançados de osteoartrose, tanto na ATM como em outras articulações, seria a substituição da articulação afetada por próteses, de custo elevado, tanto para o serviço privado quanto para o sistema público, e muito superior aos da terapia proposta: “Embora esta tenha sido a primeira aplicação feita em todo mundo para ATM, uma pequena articulação, mas de papel vital para nossa sobrevivência e cuja doença produz incapacidade não apenas física, mas psicológica e social, os resultados poderiam ser testados e replicados em outras grandes articulações, como os joelhos, cujo impacto econômico é ainda maior, por serem problemas de saúde pública.”

 
Trajetória

Ricardo Tesch é graduado em Odontologia pela UFRJ (1992), especialista em Ortodontia (Odontologia) pela Associação dos Cirurgiões Dentistas de Campinas-SP (1999), mestre em Medicina com Área de Concentração em Cirurgia de Cabeça e Pescoço pelo Hospital Heliópolis-SP (2003), e doutorando em Medicina com Área de Concentração em Neurologia pela UFRJ. Ele iniciou as atividades do Curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial, realizado em parceria firmada entre a FMP/Fase e a Associação Brasileira de Odontologia, em Petrópolis, tendo como público alvo profissionais interessados na formação voltada para o diagnóstico e tratamento de condições dolorosas crônicas nas regiões oral, facial e cefálica.

Segundo Tesch, o ano de 2012 marcou a consolidação desse grupo de pesquisas e um redirecionamento e fortalecimento das pesquisas e publicações voltadas para o estudo dos transtornos degenerativos articulares e sua relação com procedimentos cirúrgicos para o tratamento de deformidades dentofaciais. No ano seguinte, após ter contato com as inúmeras publicações do professor Radovan Borojevic na área de medicina regenerativa por terapias celulares, especificamente sobre pesquisas caracterizando condrócitos autólogos como fonte celular ideal para regeneração de cartilagem articular, Ricardo Tesch e Karla Menezes, bióloga e pesquisadora da FMP/Fase, publicaram revisão sistemática demonstrando a ausência desse tipo de experimento clínico terapêutico para a regeneração da articulação temporomandibular.

Na sequência, eles elaboraram o ensaio clínico pioneiro, no transplante autólogo de condrócitos para o tratamento de reabsorções condilares. O projeto foi aprovado pelo sistema Comitês de Ética em Pesquisa/Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CEP/Conep) e contemplado com financiamento público (Faperj-2014). Com foco no desenvolvimento subsequente de outros projetos de pesquisa na área de medicina regenerativa, a FMP/Fase iniciou os trabalhos de instalação do Centro de Medicina Regenerativa (CMR-FMP), em Petrópolis, sob a coordenação de Radovan Borojevic. O objetivo é o desenvolvimento de pesquisas clínicas e pré-clínicas e o ensino das ciências e aplicações clínicas na área de medicina regenerativa. O CMR deverá conter unidades laboratoriais classificadas como Centros de Tecnologia Celular, níveis 1 e 2, de acordo com a definição dada pela Anvisa, que dispõe sobre o funcionamento dos Centros de Tecnologia Celular para fins de pesquisa clínica e de terapias correlacionadas.

“O CMR-FMP deve ser capacitado para manipulação de tecidos e células de origem humana, destinados ao uso em pacientes. A proposta visa suprir a demanda por linhagens celulares e/ou compostos contendo células humanas que apresentem potencial terapêutico para uso em medicina regenerativa, em tratamentos de doenças degenerativas ou causadas pelo trauma. A proposta visa também formar recursos humanos, nas áreas biomédicas e médica, capacitados a atuar em biologia celular e bioengenharia, aplicadas à medicina regenerativa, assim como preparar profissionais de saúde para identificar novas possibilidades clínicas, propor tratamentos, executá-los e avaliar seus resultados para o bem dos pacientes”, diz o professor Radovan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Departamento de Comunicação Faculdade Arthur Sá Earp Neto e Faculdade de Medicina de Petrópolis